apresentação

Da minha aldeia vejo o mundo

Depois de percorrer aldeias dos povos Tupinambá, Pataxó, Tumbalalá, Kiriri e Yawalapiti e a cidade de Salvador, na Bahia, com mostras de cinema indígena, o Cine Kurumin lança em sua sexta edição a primeira experiência como festival de cinema com temática indígena. Uma mostra competitiva internacional e outras três mostras especiais – Cinema das Mulheres Indígenas, Nordeste Indígena e Volta Grande do Xingu – integram nossa programação.

Nos filmes apresentados, o público vê imagens de territórios indígenas rodeados pelo agronegócio em infinitos hectares de soja. Imagens de povos ameaçados por hidrelétricas e mineradoras. Imagens que expressam ao mesmo tempo a resistência secular dos povos indígenas. Imagens fortes, em sua estética e política. Imagens cosmológicas vivas que surgem em experiências rituais.

Da minha aldeia vejo o mundo é uma provocação e um chamado a ver e ouvir as perspectivas expressas nos filmes indígenas. Filmes realizados por (ou sobre) uma multiplicidade de povos – Guajajara, Pataxó, Juruna/Yudjá, Arara, Guarani e Kaiowá, Tapeba, Kayapo, Munduruku, Guarani-Mbya, Tupinambá de Olivença, Cree, Krahô, Potiguara, Sapara, Krenak, Tukano, Maxakali, Kwakwaka’wakw, Tapirapé, Ashaninka, Kuikuro, Quechua, Kayapó, Truka, Kalapalo, Pataxó Hã-Hã-Hãe, Fulni-ô, Xavante, Pankararu, Achagua, Xukuru, Shiwiar, Navajo, Inuu, Mapuche, Maya, Anishinaabe, Wayú, Anishinaabe, Innu, Huni Kuin, Ikoots – estão no festival.

Esses filmes lembram a afirmação de Ailton Krenak: – Quem nos chama de índios, aliás, são os brancos. E o que diz também Daniel Munduruku: Não sou índio e não existem índios no Brasil. O que existem são povos. Eu sou Munduruku. A América Latina tem cerca de 45 milhões de indígenas e há pelo menos 250 povos e 180 línguas indígenas, no Brasil. O Cine Kurumin abre uma janela para o cinema dos povos indígenas e projeta toda essa diversidade, numa ação de retomada do imaginário.
Realizamos uma ocupação intercultural que se propõe a refletir com a experiência audiovisual do cinema dos povos indígenas.

A dimensão da questão indígena é planetária. O povo da mercadoria precisa ouvir os povos das florestas. É de Davi Kopenawa a expressão “povo da mercadoria” para se referir aos brancos, que ele chama de gente de pensamento curto, gente cujo pensamento está cheio de esquecimento e vertigem, pois permanecem cravados nos minérios e nas mercadorias por tempo demais. Gente que, por manterem a mente cravada em seus próprios rastros, ignoram os dizeres distantes de outras gentes e lugares. Gente que só sonha consigo mesmo.

Convidamos todxs a olhar de perto os filmes indígenas e a cosmovisão que atravessa essas imagens. Bem vindxs aos Cine Kurumin – Festival de Cinema Indígena!